9. Caça ou caçador?
Eu estava caminhando pela floresta em silêncio, ouvindo o coaxar de sapos e gorjeio dos pássaros, numa calmaria sobrenatural. Então, tive a impressão de estar sendo seguido, vigiado, também. minha nuca formigou e eu comecei a suar frio. Dali a um tempo, a sensação aumentou de intensidade e eu quase que podia ouvir um som de algo arrastando a folhagem. Quase. parecia que eu estava imaginando coisas, mas decidi tirar a dúvida. Virei-me de repente. não vi nada além da imensidão da floresta. Mas aquilo não me acalmou. tampouco me senti mais seguro. Ao contrário, o medo do desconhecido já começava a me invadir. Eu me perguntei se não estava ficando louco. entrei num declive, que mais pra frente se tornava uma inclinação mais abrupta, mas fácil de transpor. Lá era um vale, e a névoa que sobrou da madrugada refastelava-se sobre as gramíneas e pedras cheias de musgo. a visão era difícil. Ouvi um barulho de folha seca se despedaçando, e um calafrio percorreu minha espinha. os pelos da nuca se eriçaram, e eu entrei num estado de alerta. Era uma sensação indescritível, instintiva. Me virei, mas não vi nada. Mais barulhos, mas eu não sabia de onde vinham. um som de chocalho foi a prova de que eu corria perigo. Saquei o facão e a adrenalina me subiu às têmporas, fazendo-as saltarem.
Continuei andando, pé ante pé, com o facão na mão, o coração pulsando violentamente. A maldita cobra sibilou e se ergueu, frente a frente comigo, e eu congelei até os ossos. não consegui esboçar reação, mas um sentido de urgência me devolveu a coragem. A cobra abre sua bocarra e eu vejo uma fileira de dentes pontiagudos, enormes, prontos para me comerem vivo. Ela prepara o bote, mas num último momento desce até o chão e começa a se contorcer rapidamente. percebo a tempo o que ela estava quase conseguindo fazer: me enrolar e esmagar. Vejo que a cobra é colossal, e largo o facão. Ele não adiantaria nada com uma criatura daquele tamanho. saco a arma e atiro na névoa. A cobra emite um guincho agudo, avassalador, e de repente me aperta.dou mais três tiros, e a cobra afrouxa. Mas ainda se debate e contorce, querendo me picar. Seus dentes passam rentes ao meu braço, e eu os sinto fisgarem na mochila. num ato reflexo, me viro a atiro. Acerto a cabeça da cobra, e ela morre.
Com esforço tremendo, levantei o corpo da cobra e fugi daquele lugar agourento. Numa clareira, cortei a cabeça da cobra e abri a barriga. Retirei tudo que não era carne, e o resto deixei. lancei os órgãos no mato. Que os abutres comam- pensei. Depois disso, fatiei a cobra em tiras, que dali a pouco serviriam de almoço. peguei um galho do tamanho de uma flecha e atravessei em três pedaços de carne. Consegui fazer fogo, e deixei a carne assar.Eu a virava constantemente, para assar unifomemente. depois de um certo tempo, a carne estava pronta. arrisquei uma mordiscada e gostei. Claro que eu preferiria muito mais a comida da minha mãe, mas tudo bem. A cobra tinha um gosto diferente, que lembrava um pouco o frango, mas tinha um sabor mais marcante. guardei os outros pedaços crus na bolsa ( uns 30), e trepei numa árvore para descansar. Tirei um cochilo. Acabei dormindo, e tive um pesadelo.
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